domingo, 26 de março de 2017

A arte de perder - artigo do Jornal Expresso Ilustrado - 24 de março de 2016


A arte de perder


Perder é uma arte... Ganhar nos ensinam, em todos os lugares, desde quando a gente nasce. Somos competitivos por natureza, muitas vezes ultrapassando qualquer limite. Já perder é uma arte. Um dom, distribuído para poucos, apesar de que perdemos um tanto a cada dia, com duras derrotas. Saber perder não é para qualquer um, mas para os artistas da existência. A dor da derrota carrega uma tonelada de sabedoria. Mas a vitória... Ah, a vitória! Aquela de sobrepor os outros, transporta apenas o massagear da própria vaidade. Perder se resume com a palavra eternidade... Perdemos os pais, os amigos, os amores. Perdemos os nossos melhores dias, os momentos mais felizes. Perdemos a professora num acidente de carro, o profissional engasgado, o poeta isolado. Perdemos o futuro, o presente e o passado. Esquecemos que o que acontece agora também acaba e não existe mais. Existir é sinônimo de perder, assim como para Zé Ramalho “amar é sinônimo de sofrer”. Se você não sofre, se realmente é feliz, talvez incorpore apenas um tolo vazio. Não tem o verdadeiro significado de humanidade, dentro de sua mísera cabeça. Agora, perder é viver. Perder é dar adeus, ou não dar! É acompanhar a cirurgia do seu amor – seu pai, sua mãe, seu cônjuge, seu filho – e não ter o acordar para a foto de superação. Perder é ser verdadeiramente humano, alienado ao mundo facebookiano e mentiroso que nos cerca, numa contemporaneidade doentia. Não! Não quero que você me compreenda, pois você não sou eu. Mas quero que perca, para ser vencedor. Desejo que fique triste, para dar valor para a felicidade. Sei que não sou ninguém, mas, tal como Fernando Pessoa, tenho em mim todos os desejos do mundo. Nossa derrota é vencermos. Perdemo-nos. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por deixar o seu comentário neste blog.
Agradeço o tempo investido nesta comunicação.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...